2006-02-23

Zeca Afonso (23/2/1987)


José Afonso

morreu neste dia 23 de Fevereiro de 1987, humildemente aqui fica a minha homenagem a um Homem, simplesmente Homem.














A Morte Saiu a Rua

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calcada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai
O vento que da nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vao dizendo em toda a parte o Pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abracou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rira melhor quem rira por fim
Na curva da estrada hà covas feitas no chao
E em todas florirao rosas de uma nacao

Fotografia de Mário Sousa

2006-02-22

Tão Distante


Tão Distante

Deixai-me olhar os teus olhos.
Deixai-me sentir o teu coração.
Para ver se aprendo com todo o carinho que demonstras.
Tomara tu sejas mesmo assim, com um tão intenso desejo de viver,com um amor tão profundo, um sonho tão bonito e uma imensa vontade de ser feliz.
Dia após dia, sem lembrar do ontem, nem pensar no amanhã, mas com profundo amor por quem te acompanha hoje.
Dos teus personagens eu já sei.
Agora gostaria mesmo é saber de você.
E ver se meu coração não se engana quando diz que teus personagens carregam algo de ti.
Algo bom como o desejo, o amor, a dedicação.
Mas saber de ti é um sonho tão distante.
Divagação.
28/10/91
Luis Bertini

Fotografia de Mário Sousa

2006-02-19

Ideal


Ideal
Aquela, que eu adoro, não é feita De lírios nem de rosas purpurinas, Não tem as formas lânguidas, divinas Da antiga Vênus de cintura estreita... Não é a Circe, cuja mão suspeita Compõe filtros mortas entre ruínas, Nem a Amazona, que se agarra às crinas Dum corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino Com o nome que se dê a essa visão, Que ora amostra ora esconde o meu destino...
E como uma miragem que entrevejo, Ideal, que nasceu na solidão, Nuvem, sonho impalpável do Desejo...

Antero de Quental

Foto de Mário Sousa

2006-02-13

O papel do indivíduo na história III

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(Porque, Sophia de Mello Breyner Andresen)

Fotografia de Mário Sousa

Corpo e Alma


José Gomes Ferreira Morre a 8 de Fevereiro de 1985

corpo e alma
porque sofres tu perguntou a alma ao coração entendida que era pois também ela padecia quando fitava o sol e logo se escondia no silêncio sem resposta imediata o coração suspirou pelo espanto e pelo medo dispenso que era da ansiedade sofria no seu âmago perdera o compasso perdera as vozes que o acompanhavam receava a ternura da madrugada as lágrimas eram o seu deleite mas também o eram as memórias foi por elas que sorriu não acreditam mas sorriu com estima pela alma aí reconheceu os afectos lembrou quem tinha partido imaginou montes e vales lugares do dia-a-dia as palavras e o odor dos momentos mas sorriu sorriu para celebrar a vida e permitir a esperança

José Gomes Ferreira

Fotografia de Mário Sousa

2006-02-01

A LIÇÃO DO HAMAS


A LIÇÃO DO HAMAS

A vitória esmagadora do Hamas nas eleições legislativas para a Autoridade Palestina foi uma vitória da combatividade. Os representantes do Hamas foram eleitos não por serem muçulmanos e sim por serem combativos. Trata-se de uma lição fundamental para aqueles que se dizem laicos, ateus, "de esquerda", ou até "marxistas" mas na vida real têm posições capituladoras e de compromisso com a reacção. Assim, entre laicos conciliadores e religiosos combativos, os povos preferem os últimos — por serem combativos e não por serem religiosos. Esta lição é preciosa para o movimento revolucionário de todo o mundo. Hoje, tanto na Europa como em outros continentes, há numerosos partidos que se dizem comunistas mas já não o são. Transformaram-se na prática em partidos reformistas/possibilistas, que muitas vezes se prestam a por um carimbo "de esquerda" a políticas reaccionárias. Contudo, não chegam a obter as ditas "reformas possíveis" e acabam por desmoralizar-se. Foi o que aconteceu ao Fatah.

(este texto foi copiado do site resistir.inf)
Foto de Mário Sousa