2006-03-30


"olhares sobre o Partido" III

Oh Abril!
Abril deu-me asas e convidou-me a ouvir baladas diferentes
Segui-o, segui-o a pensarque hei-de sempre aprender se for para a frente
Segui-o com a convicção do poder me contentar com o que ele me quiser prendear porque o ouro já possuo no meu coração. Oh Abril Esperança, que me leva a aventurar Em céus com as cores do arco-iris Oh Abril, que abres as portas dos lares solitáriose invades os jardins com risos infantis Oh Abril o sol também brilha na cabeça do velhinho que aspira a um cantinho numa janela adornada de mangericos para seguir a memória longínqua Oh Abril, a brisa também suave suspirano doente que adormece sob o olhar quente duma alma carinhosa que ainda e crente Oh Abril se possível fosse dar-te a mão e levar-te aos carentes aos famintos aos sedentos e fazer nascer jardins e fazer jorrar a água das fontes ressequidas pelo mau tempo erigia-te um templo.

Diana de Moura, Halifax, Canadá

2006-03-27


"olhares sobre o Partido" II

Soneto presente
Não me digam mais nada senão morro aqui neste lugar dentro de mim a terra de onde venho é onde moro o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo a não ser os que eu amo os que eu entendo os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima porque é debaixo que me vem a cima a força do lugar que for o meu.
In: Obra poética de José Carlos Ary dos Santos, Lisboa, edições "Avante!", 5ª ed.,1994

2006-03-26


“Olhares sobre o Partido”

Inauguração da Exposição, pelas 17:30 horas.
No 85º aniversário do,
Partido Comunista Português
“Olhares sobre o Partido”
Exposição Colectiva de Fotografia
De 25 de Março a 25 de Abril, no Centro de Trabalho do PCP, da Amadora
Comissão de Freguesia da Venteira
(Apoio: Fiat Lux, Grupo de Dinamização da Fotografia)

2006-03-21


POESIA LIBERTÁRIA

Ausente de amarras,
Flui a poesia
Impregnada da pura sensibilidade do criador,
Que retrata o idiossincrático
E desafia o convencional,
Não raro, desfechando o despercebido,
Apresentando a beleza do ignorado,
Ganhando a repulsa dos ressentidos puritanos.

Sem medos.
Assim se desenvolve a poesia libertária.
O singelo toque da caneta no papel,
Num gozo de idéias irrefreáveis
Despidas de qualquer pré-conceito,
Expondo o íntimo desguarnecido do poeta,
Sujeito a todo tipo de vis ataques
Do sabre débil da incompreensão.

Com fé na ausência,
No nada,
no tudo,
no conveniente;
Profanando o estabelecido,
A Lótus extasia e enraivece.

Libertária, sempre libertária,
Colorindo de preto e branco
A mesmice cotidiana
Das verdades direcionadas.

Pássaro em busca do horizonte,
Assustado e contemplativo,
Viajante do mundo das sensações,
Angustiado pelo gigantismo parasita das convenções.
Mas livre!
Indubitavelmente livre!
Como há de ser o poeta.

Luc Gabriel
20/02/2006

IRAQUE

O gorjeio soava alto;
O cenário montado;
Luz, câmera, ação:
Transmissão simultânea para o mundo.

Mas o canto ...
Impregnava o ambiente de uma sensação estranha,
De um sentimento de paz!
Como no amanhecer de outro dia repleto de normalidade.

A chuva de chumbo em contagem regressiva,
E aqueles seres abomináveis a cantarolar,
Destoando no quadro,
Retirando-nos a apreensão.


Os pássaros não foram avisados!
Na esquete montada,
Esqueceram dos pássaros,
Que continuaram a entoar suas canções!

Mas era natural que o fizessem,
Pois assim procedem todos os dias;
Errados estávamos nós
Que não os informamos.

Afinal, a canção inédita era nossa;
Com voz esganiçada,
Letra ressentida
E música imbuída do mais puro espírito humano.

A partitura era única:
Densa e monocrática,
Descompassada e alucinante,
Mas com brilho; muito brilho;
exultante pirotecnia.
E eles quase estragaram tudo.
orjeavam alto;
Mas sem culpa;
Não foram avisados.
Luc Gabriel
09/03/2006

Mariana Morais
nasceu e cresceu nas tipografias clandestinas

A menina dos olhos

«A primeira coisa que vi quando abri os olhos foram letras», conta Mariana Morais. Filha dos tipógrafos clandestinos Joaquim e Catarina Rafael, viveu os primeiros anos da sua vida com os pais numa casa isolada, perto de Coina, onde funcionava uma tipografia clandestina. A casa não tinha condições para um parto e Mariana foi nascer a Almada, na casa de Gabriel Pedro, também ele militante comunista. Aos dois anos e meio, deu-se a separação. «Comecei a falar muito cedo e sempre fui muito faladora», lembra Mariana, contando a história da separação dos pais. «Via o meu pai a trabalhar, a fazer as palavras, a compor os jornais com aqueles caracteres inventados pelo Gutenberg, com a letrinha no topo. Perguntei-lhe o que era aquilo e ele respondeu-me que eram “pregos”. Um dia fui à rua com a minha mãe e disse a uma vizinha que tinha ido às compras com a minha mãe e que o meu pai tinha ficado em casa a fazer “pregos”». A criança começava a pôr em causa a defesa da casa clandestina e foi viver para Vale de Vargo, com a avó materna e os tios. Os anos passados longe dos pais foram marcantes para Mariana Morais. «Quando fui para a escola já conhecia as letras de imprensa. Não me lembrava que as tinha aprendido, mas lembrava-me dos “pregos”», recorda. O saber adquirido pela criança não se limitou à escola, que frequentou por escassos seis meses: Vale de Vargo era uma terra de trabalho e eram frequentes as lutas dos operários agrícolas e a pequena Mariana aprendeu, mesmo sem o saber, o que era a exploração e o fascismo. Aos sete anos, regressou para junto dos pais, então a viver no Norte. «Eles disseram-me tudo. Já não me chamava Mariana, mas sim “Maria” e mostraram-me as razões da luta», lembra. «Eu tinha visto os camponeses a passar fome e, ouvindo os meus pais, tudo aquilo me fez sentido.»Das ideias fazer palavrasNo final da década de 50, Joaquim Rafael muda-se com a família para os arredores de Lisboa, para uma casa onde funcionava uma tipografia clandestina. Foi então que a pequena Mariana, com apenas nove anos, se iniciou na composição manual da imprensa do Partido. «Foi uma coisa de que gostei muito», recorda. «Pegávamos nas letras, com elas fazíamos as palavras e imprimíamos os textos que os camaradas redactores escreviam.»A composição dos textos era uma tarefa meticulosa e demorada e Mariana lembra-se de passar horas a fio com os pais a compor, com um cobertor enrolado à cintura para minorar o frio. Mas, recorda com um sorriso, que «era giro fazer as palavras e as notícias e ver aquilo tudo impresso. Quando havia gravuras, então, era uma maravilha». Tantos anos passados, Mariana ainda recorda a posição dos caracteres nas caixas do tipo: «Do lado direito eram as letras e do outro os espaços; o quadrado maior era o do “a”… O meu pai trouxe tudo em bruto e depois fez as caixas, para dividir os caracteres. E aquilo era muito giro para uma criança.»Do trabalho nas tipografias, Mariana Morais guarda muitas recordações, embora tenha deixado essa tarefa com apenas treze anos de idade. «Até tenho saudades do cheiro da tinta e do chumbo», afirma. O mesmo chumbo, altamente tóxico, que acabaria por vitimar o seu pai, falecido pouco depois do 25 de Abril. Do pai, preserva a memória de um homem exigente com o seu trabalho: «Aquilo tinha que sair perfeito e às vezes ficávamos noites inteiras a vê-lo montar e desmontar o rolo, para que não ficassem manchas no papel.» Já no fim da sua vida, depois de lhe ter sido diagnosticada a doença que o vitimaria, Joaquim Rafael trabalhou incansavelmente na impressão de 150 mil manifestos para as grandes lutas ocorridas, já nos anos setenta, no Norte do País. «Tossia dia e noite, era uma coisa pavorosa. Mas fê-lo satisfeito, pois havia um grande amor àquilo que estava a fazer.»Para Mariana Morais, a imprensa clandestina era a «menina dos olhos» do Partido e um dos principais alvos da repressão. E, também para quem lá trabalhava, essa importância fazia-se sentir: «Participávamos numa coisa concreta, que se via. As ideias eram transformadas em palavras, e estas em jornais e manifestos que eram levados às pessoas e que depois tinham uma realização prática nas lutas do nosso povo. E nós éramos actores disso.» O papel de uma vidaMas a vida clandestina não era fácil e a jovem Mariana Morais cedo percebeu isso. «Era difícil não lidar com os outros miúdos e não ir à escola. Ainda por cima, sociável como sou…» Em tantos anos de vida na clandestinidade, só por uma vez uma criança entrou na sua casa, num aniversário. E apenas aconteceu para não levantar suspeitas entre os vizinhos.Mariana recorda que mesmo quando brincava sentia «aquela tensão de estar a defender a casa». As outras crianças e os vizinhos, afirma, «não me conheciam a mim, mas à personagem que eu representava». Apesar de ser «muito faladora», nunca pôs a família e o Partido em risco. «Não estava nada descontraída e falava aparentemente de forma aberta, mas nunca respondia a nada que não pudesse», lembra Mariana. Em sua opinião, limitava-se a fazer como os actores: «assumia uma personagem e levava-a até ao fim». Hoje, Mariana reconhece que viver a fingir desde os sete anos de idade lhe poderia ter criado problemas psicológicos. Mas, destaca, as «crianças têm mecanismos que nós, em adultos, já não temos e são capazes de coisas extraordinárias». Uma vez, com a polícia a rondar, mãe e filha tiveram que sair de casa à pressa. Do pai nada sabiam e esperavam um camarada que as levaria para um local seguro. Mas este atrasou-se e ficaram as duas na rua, à espera. Quando os polícias se aproximaram delas, Mariana, então com sete anos, começou a falar com os agentes sobre a sua boneca e distraiu-os. «Eu fazia aquilo automaticamente, de forma instintiva. A minha mãe nunca me tinha dito para fazer nada daquilo, mas os miúdos percebem as coisas.»Aos dezassete anos, Mariana separou-se novamente dos pais. Um ano depois, mergulhava por sua conta na clandestinidade, com o seu companheiro, Armando Morais. Com dois filhos nascidos na clandestinidade, viu aproximar-se o dia da separação.«Felizmente, veio o 25 de Abril.»Aquilo que mais temia era que a polícia usasse os seus filhos como pressão, caso fosse presa, e pensava naquilo que faria. «Muitas vezes de noite pensava que, no dia em que tivesse dúvidas acerca desta resposta, teria que colocar isto ao Partido, pois era a minha obrigação. Mas nunca cheguei a essa altura, e não sei se alguma vez chegaria…»Recentemente, Mariana Morais concluiu o curso de Ciências da Comunicação, com 14 valores. Até aos 42 anos nem a quarta classe tinha. «Sempre gostei de jornais», confessa com um sorriso.

2006-03-04

Poesia e Libertação do Homem... III


Poeta castrado não!
Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo dromedário fogueira de exibição teorema corolário poema de mão em mão lãzudo publicitário malabarista cabrão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não!
Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria uma coragem serena em renegar a poesia quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu a força que tem um verso reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa - mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história - a morte é branda e letal - mas que dizer da memória de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?! - Ah não me venham dizer que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem por temor ou negação: Demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não!
José Carlos Ary Dos Santos