2006-05-10

A dimensão da coerência


Depoimento

A dimensão da coerência

Ruben de carvalho

O traço justamente mais sublinhado sobre Álvaro Cunhal é o da firme coerência, a determinada fidelidade às suas convicções de sempre. É de uma visão justa, mas que faz correr o risco de um perturbante equívoco. Na verdade, essa coerência, levada às últimas consequências de empenho e sacrifício, não relevava de uma personalidade unidemensional, de um universo intelectual limitado ou obcecado, antes era o resultado do pensamento e do coração de um ser ricamente contraditório, o resultado de opções tanto mais ricas quanto viviam de um diálogo interior de uma enorme riqueza. O pensamento político de Cunhal é sublinhado como uma pura obediência teórica marxisma-leninista e é inquestionável que Cunhal era um rigoroso conhecedor de Marx e Lénine. Mas nada se compreenderá se ficarmos por aqui. Esta assumida matriz ideológica não se traduzia (como durante décadas foi marca universal do pensamento comunista) na citação convocada a argumento de autoridade, na repetição mecânica de fórmulas ou análises cuja riqueza antes residia na adequação à sua contemporaneidade. Era na rigorosa e constante preocupação com a realidade, na atenção ao quotidiano e no estudo sistemático de dados que Cunhal revelava e ganhava a sua autoridade e eficácia. Esta vertente teórica dele não fazia, contudo, um frio intelectual de gabinete. A par e passo, havia o observador com um profundo sentido prático das coisas, sempre virada a compreender o Homem, a integrar tal compreensão na visão e na proposta política. Nem, por outro lado, se pense encontrarmo-nos ante o adepto da construção de esquemas e projectos frios resultado de análises falamos de um político capaz de intuições surpreendentes, que as fazia dialogar com o rigor analítico e, quantas vezes, acabavam por ser responsáveis por sínteses de espantosa fertilidade. Recorde-se, por exemplo, quanto representa de criatividade teórica e política uma ideia como a de que o futuro transformador do 25 de Abril resultaria do binómio povo-MFA e como essa criadora e aparentemente simples síntese se viu confirmada como uma evidência definidora da realidade 74-75. Da mesma forma se poderá falar da imagem de dura intransigência com a qual se tende a emoldurar a coerência, quando se sabe da multiplicidade de interesses e talentos, de uma vida interior fina e cultivada, de uma sensibilidade estética criadora, de um conceito e prática de vida em que se integravam afectos, prazeres, alegrias e tristezas.A surpresa que para muitos constituiu o livro "A Arte, o Artista e a Sociedade" ver-se-ia certamente ampliada quando se soubesse que uma reunião com Álvaro Cunhal podia perfeitamente terminar com uma polémica face à sua opinião de que a culinária mais apaixonante é aquela que a partir dos ingredientes utilizados cria um sabor novo e inexistente na natureza (perspectiva, de resto, inteiramente marxista!) ou que do seu conceito de exercício do cargo de secretário-geral fazia parte a concepção de dever guardar segredo, mesmo face ao partido, de aspectos pessoais da vida de um quadro, fosse questão do foro efectivo ou de uma doença grave.O que dá grandeza à figura de Álvaro Cunhal não é qualquer cega determinação de um iluminado, um qualquer sectarismo filho de uma visão limitada do mundo. É, bem pelo contrário, a forma como um homem a quem quase tudo teria sido possível, fez a sua empenhada e exemplar opção de vida não limitando ou mutilando personalidade ou talentos, mas antes vivendo-os com humana vontade. O que explica que recordemos Álvaro Cunhal como um grande Homem é estarmos face a alguém que lançou na vida de entrega aos outros que escolheu tudo aquilo de que a vida o dotou e tudo o que da sua própria vida justamente recebeu.

Foto de Mário Sousa

4 Comments:

Blogger Vanda Baltazar said...

pouco recebeu perante tudo o que deu.

grand post, este o teu.

porque afinal o 25 e o 1º´são tambem quando um homem quiser :)

um bom dia para ti, Mario

Beijinho

Van

9:03 da manhã  
Blogger Vanda Baltazar said...

Já reparaste a quantidade de pessoas entre nós bloguistas que o viram cantar? leste os comentarios k lá foram deixando no meu post?

foi isso que mais me surpreendeu...!
e alegrou!

Parece que o Zeca continua a cantar para o nosso Povo :)

Van

4:33 da tarde  
Blogger Vanda Baltazar said...

não te estas a repetir, não!

;) ja la vou, agora estou-te a linkar;)

beijo

Van

11:25 da manhã  
Blogger Vanda Baltazar said...

fui hoje! Grandes fotografias que mostram bem os teus olhares atentos, sobre este nosso mundo!

com um portfolio daqueles voltarei lá com certeza!

Um beijo, Mario e parabens!

6:53 da tarde  

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